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Sem choro, nem vela

Não tem caneco canarinho na Copa das Copas. Estamos todos chateados – é um saco perder campeonato, principalmente quando se joga em casa.

“Aff mas não era um campeonato, era a Copa, um evento mundial de grandes proporções e…”

A Copa do Mundo, por mais glorificada que seja, é só isso: um campeonato. Ela tem o mesmo valor que o Paulistão, que o Mundial de Clubes, que o Interescolar… Enfim. Mudam algumas coisas, mas no fim, estamos todos disputando a mesma taça bonita e o prêmio bacana em dinheiro, ou o que quer que seja.

Isto dito, preciso desabafar: o brasileiro é uma bee muito dramática.

É sempre assim: acontece algo bom – nada extraordinário – e vai o brasileiro pulando, cantando, dançando e rodando pela “melhor coisa do mundo de todos os tempos”.

Não é diferente quando algo ruim – nada terrível – acontece. Todo mundo chora, arranca cabelo, queima bandeira (é crime, tá?), liga pra mãe e lamenta a “maior catástrofe de todos os tempos”.

É muito drama pra uma nação só. E ontem, não mudou nada. Muito se falou em humilhação, vexame, catástrofe e “tragédia nunca vista antes numa Copa do Mundo”.

A corrida eleitoral já começou e vocês farão a mesma novela. O jingle bonito vai “trazer esperança” e lá vão vocês pulando, cantando, dançando e rodando pras urnas. A reportagem vai denunciar algo e vai todo mundo espumar a raiva da “desgraça sem limites” no Facebook.

Se o candidato Guerreiro Épico não vencer a batalha e salvar o mundo, vocês dirão “não vou votar porque nunca farei a diferença”. E se o candidato Sayajin Galáctico ganhar, em dois anos estão vocês na rua berrando “fora Vergonha Nacional nunca antes vista” porque o Fulano não liberou Teletubbies às 10 da manhã.

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Sério, parem. Vocês acham que nunca antes na história de um evento de 84 anos, se fez sete gols numa partida? Os Mágicos Magiares se ofendem. Oras, nós já fizemos sete gols em outra seleção. Não é um placar incomum em Copa. Nós sequer entramos para o Top 10 de goleadas.

“Ah mas a Alemanha nunca tomou uma goleada dessa”

Vejam aqui a Alemanha, após perder de oito – OITO – para a Hungria.

A Alemanha, aliás, tem a única seleção da história da Copa do Mundo que conseguiu perder dela mesma (imagem da direita).

“Ah mas ninguém tomou tanto gol tão rápido”

Perguntem para a Alemanha em quanto tempo a Hungria marcou seus 8 gols. Kocsis era um excelente garoto-propaganda de relógios suíços.

“Ah mas a Alemanha nunca perdeu em casa”

Vejam aqui a Alemanha dando adeus pra Copa de 2006, em casa, depois de dois frangos constrangedores para a Itália. Na semifinal, tá?

Qualquer semelhança não é mera coincidência, né Ballack?

Qualquer semelhança não é mera coincidência, né Ballack?

Esporte é assim. A gente se prepara pra fazer o melhor, mas os resultados não foram publicados na saga Jogos Vorazes. A sorte pode estar a nosso favor ou não. Ontem, ela não estava. É triste, mas a vida segue – e de preferência, sem novela mexicana. Todas as equipes participantes entendem isso.

“Ah mas nós nunca perdemos assim”.

Sempre tem a primeira vez.

Tão feio quanto esse exagero, é essa comemoração forçada. Então você torceu contra a seleção porque não te deram a Lu Patinadora de Natal? Que beleza. Você é livre pra fazer o que quiser, mas seria apenas sensato ter uma breve noção de dever cívico. Querendo ou não, a seleção te representa neste esporte; o mínimo que você pode fazer pela sua autoestima é não torcer contra si mesmo.

Meninos da canarinha, a equipe tinha defeitos – não, Fred, não vou jogar toda a culpa em você, apesar da sua má fase – e qualidades, como toda equipe tem. Vocês foram bem, com o material que tinham, e carregaram a nação longe.

E pro menino David Luiz, eu preciso pedir perdão. Mea culpa, mea maxima culpa.

Podem me linchar. Porque sou leitora de As Crônicas de Gelo e Fogo (pra quem assiste HBO, é Game of Thrones mesmo) há tempo suficiente pra saber que nunca, jamais, em tempo algum, pessoas podem ser associadas aos Stark. Fazer isso é pedir por calamidades escritas por George R. R. Martin. Você, David Luiz, entrou em campo confiante no seu desempenho. E eu não pude evitar de pensar em Robb Stark, com toda aquela glória do seu cabelo.

"O Rei no Norte", pensei eu. Devia ter cortado a cabeça nesse momento.

“O Rei no Norte”, pensei eu. Devia ter cortado a cabeça nesse momento.

Foi um lapso terrível. A corrente de gelo e fogo é intensa, o velho Martin deve ter ouvido aquele breve lapso e começado a escrever. E assim acabou sua Copa, nas Chuvas do Mineirão.

Olha o David Luiz ali na frente... Moço, desculpa =(

Olha o David Luiz ali na frente… Moço, desculpa =(

Eu me sinto responsável pelo choro convulsivo desse menino. Espero que David Luiz seque as lágrimas e perdoe meu pensamento estúpido. Eu juro que quis voltar no tempo e arrancar a sinapse infeliz (continuo querendo). E eu juro que você e seus companheiros deram muita coisa boa nessa Copa. E por favor, perdoe essa insolente por ter estragado sua Copa desse jeito tão nerd.

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Mas esse aqui, a gente não perdoa. Jamais.

(tomara que ele leia esse texto, porque a culpa é enorme, amigues)

“Aff a Copa não era dele, ele tem obrigação de jogar”

Você obviamente não jogava nem queimada. Quem já defendeu camisas, federadas ou não, sabe como cada jogo é importante. Era a chance deles de defender essas cores com tudo que eles sabem de futebol.
Parabéns aos meninos da seleção. Com toda a maré contra, vocês deram o melhor que tinham em campo e fora dele. E vocês deram muita alegria sim, até nos erros. Foi (continua sendo, tem jogo sábado) um prazer acompanhar vocês nessa Copa –os brasucas são orgulhosos para admitir, mas eles amaram cada minuto. Então, não se sintam envergonhados. Vocês são motivo de orgulho.

Disse o Zagallo, e eu repito: vamos ter que engolir. O que importa é o que a seleção vai aprender com isso pra ficar mais forte. E o que nós, brasileiros, aprenderemos pra não sermos mais bees dramáticas.

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Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.