Sobre o tempo

Certa vez, um dos antigos chefes tinha uma reunião marcada. Foram dias intensos preparando material, estudando aspectos técnicos do tema e outras coisas. A pessoa simplesmente não apareceu. Não deu uma palavra. Muito foi investido naquela reunião. Tempo e recursos, desviados de tarefas mais produtivas – porque resultariam em algo. E tudo em vão.

O tempo é o bem mais precioso que temos, e também é o que mais subestimamos nos outros. Marcamos consultas no dentista e simplesmente não aparecemos. Deixamos de responder aquele e-mail importante por semanas. Esquecemos as pessoas do lado de fora da sala esperando reunião por horas a fio, apenas para dizer que não poderemos atender.

Faltamos com as pessoas. Desperdiçamos o que elas dedicam para nós e não nos preocupamos com as repercussões disso. Parece que não existem; não nos afetam. Mas essa não é a realidade do mundo, amiguinhos. Estas faltas prejudicam a todos.

3lsms4q

Muita energia é desperdiçada, por algo ou alguém que não considera as reais consequências desse ato de jogar o tempo e os recursos alheios pela janela. Cada consulta marcada e não atendida rouba a produtividade dos colaboradores, que poderiam assistir outros procedimentos e cumprir outras tarefas, além de descartar uma série de utensílios médicos que não podem ser reaproveitados, mesmo quando não usados.

Tudo jogado fora, e isso seria evitado se você tivesse comparecido, ou ligado uma hora antes para cancelar. Quando você não responde àquele e-mail, alguém fica esperando. Alguém que dependia de você para fechar um negócio, resolver uma pendência, mas que perdeu uma grande oportunidade, pela sua falta.

Quando você, juiz, esquece o advogado que veio despachar uma liminar do lado de fora do seu gabinete, você priva os clientes deste advogado da atuação dele, em defesa dos interesses e direitos deles. O tempo que ele passa ali, esperando, é tempo indisponível para cuidar destes assuntos. Todos eles tão urgentes quanto a pilha – física e eletrônica – de processos na sua mesa.

Terrível, não? As pessoas fazem isso todos os dias. E desperdiçar o tempo alheio não acaba aqui. Às vezes, as pessoas acreditam que podem não pagar algo. Um serviço prestado, um produto adquirido, enfim, algo que por elas foi utilizado. Por quaisquer razões, há quem acredite que dizer “não vou pagar” e deixar por isso mesmo resolve tudo.

tumblr_mt8fu8nezz1s3p06ao9_250

Alguns dizem isso e ignoram as tentativas de diálogo. Outros inventam problemas no serviço ou no produto, usando isso como razão para não pagar. Há ainda os que levam a falta na flauta; toda segunda-feira, prometem que vão pagar na sexta-feira. E enquanto isso… Alguém está esperando. Pessoas assim acreditam que aquilo não as afeta. Mas as repercussões estão ali, escancaradas.

Faltas tem consequências. E para o profissional liberal, são venenosas. Muitos não entendem que as pessoas que trabalham por conta própria não possuem equipes grandiosas por trás delas: os resultados dependem inteiramente daquele profissional, dos esforços dele empregados no assunto, no tempo e nos recursos que ele disponibiliza.

Ilustradores, advogados, redatores, contadores, engenheiros, profissionais da área publicitária… Todos sofrem com isso. As pessoas ignoram o tempo investido e os recursos – nada baratos – usados na prestação dos serviços, ou na confecção do produto, que solicitaram. Dias, semanas, meses podem passar, sem que o profissional veja um sinal da contraprestação que lhe é devida. Ele está sempre esperando: o juiz atender, o pagamento cair, o material chegar… É complexo passar a vida esperando em vão.

tumblr_inline_n9lqvqD7WI1rfl1do

As escusas são muitas. Quantos ilustradores tiveram que lutar para receber o que acordaram para elaborar uma identidade visual? Quantos artesãos tiveram de parar a produção de utensílios, pela falta de recursos derivada da inadimplência? Quantas ações de cobrança e execuções de títulos extrajudiciais abarrotam os gabinetes do Poder Judiciário, envolvendo pessoas que só queriam que aquele tempo investido não fosse jogado ao vento? As repercussões destes eventos são terríveis.  E afetam todo o nosso sistema social.

Cada falta sua tem o potencial de desperdiçar uma série de ferramentas, além de privar as pessoas dos recursos necessários para a subsistência e a realização de suas tarefas. Em circunstâncias extremas, pode sobrecarregar outras pessoas.

Para cada profissional esperando um pagamento, ou uma resposta, temos outras pessoas esperando um resultado. E se o profissional tem seu tempo, ou seus recursos, amarrados à espera, ele não pode fazer o que se espera dele. Pessoas se prejudicam, o que por sua vez, traz transtornos a outras, que dependiam dos resultados que aquelas esperavam. É o ciclo sem fim de repercussões geradas por uma falta.

tumblr_n06bvu8MFX1svlbsko1_500

Quando uma borboleta bate as asas no Brasil, um tsunami pode ocorrer no Japão. As faltas que todos temos são como as asas desta borboleta. Mas podemos controlar as nossas asas. Podemos não faltar.

Podemos telefonar e cancelar a reunião, ou a consulta. Podemos ofertar planos de pagamento para as dívidas. Podemos simplesmente pagar o profissional, em vez de discutir abatimentos por frivolidades e motivos infundados. Podemos enviar uma mensagem ao autor da imagem, comumente identificado na marca d’água, e solicitar a permissão de uso. Podemos atender os advogados nas salas de espera num prazo razoável. Podemos responder àquele e-mail com algo mais que “já te respondo”.

São muitas as opções que temos para executar um único dever: o de não faltar. Nós podemos não faltar com o próximo, e valorizar, de todas as formas, o tempo de quem se dedica a nós. Que tal fazer uma corrente da presença? Não falte com quem conta com você. Faça. Apareça. Converse. Esteja lá para quem está esperando.

É isso.

Não? Imaginei.