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Status Cota

Então, é hora de falar. Gostaria de registrar minha opinião sobre o assunto; eu sempre tenho uma dessas na cartola. Falo da constitucionalidade do sistema de cotas raciais, declarada pelo STF.

A Constituição diz que somos todos iguais, e os ministros dizem que tudo bem em tornar alguns mais iguais que outros. Isso é claramente inconstitucional, certo?

Errado. Nossa Constituição é sonhadora, mas não besta. Dentro dessa igualdade, ela guardou aquela coisinha que reconhece partes do povo brasileiro menos iguais que outras, e concede algumas vantagens para equilibrar o jogo. Não adianta fazer bico; é por isso que vocês têm o Código de Defesa do Consumidor.

Mas sistemas de cotas por etnia, gênero ou preferência de Teletubbie trazem muito mais prejuízo que ajudam na tal da inclusão social.

Acreditamos que leis que forçam indivíduos com dadas características em escolas, bares, empresas, novelas e afins conseguirão a aceitação deles pela sociedade e que finalmente pagaremos a dívida do preconceito assim.

Bom… Estamos obviamente fazendo errado.  E vamos continuar errando, desta vez com os negros – com os quais nunca acertamos nada, pra começar.

O Brasil – como toda nação nesse mundo – tem uma dívida feia de escravidão. Não se engane; você nasceu na era do iPhone, mas está devendo. Você herdou mais de 700 anos de coisificação de seres humanos, cara-pálida, e tem responsabilidade nisso. Mas não é fingindo inclusão social que esse débito será quitado.

Forçar inclusão não é caminho, é burrice. Quando se força duas pessoas diferentes – e que se odeiam – a conviver, espera-se que elas aprendam a se tolerar. Sabem o que acontece? O contrário.  Por serem forçadas ao mesmo ambiente, elas vão nutrir aquele ódio e cultivar a tensão até explodir.

As cotas farão isso. Será o BBB do Racismo. Aposto que começa na UnB. Talvez o movimento “São Paulo para os Paulistas” seja o Pedro Bial nessa.

O sarcasmo é minha maneira de expor o quão errado isso dará. Essas cotas vão criar nichos de exclusão e situações desnecessárias de conflito. E isso vai aumentar até o Brasil ter seu próprio Rodney King – que, segundo reportagens da época, tinha o bendito emprego por conta de cotas para negros. Ah, terrível coincidência.

O episódio Rodney King fez 20 anos. E ninguém aprendeu nada com isso – nem com todos os horrores anteriores. Cá estamos nós, fazendo mais uma burrada racial. Tudo em nome da bendita inclusão, essa coisa que não sabemos o que é – e pelo visto, não estamos fazendo esforço nenhum para investigar.

Querem desmistificar a imagem do negro? Comecem a estudar. Os negros expatriados – carinhosamente malungos, para Aldous Huxley – têm a imagem de “tadinhos-favelados-sujinhos-burrinhos-bandidinhos” porque a coisificação massiva os fez assim. Coisificação que está hoje na mão de todo mundo, agora que viramos mistureba. A batata quente é de todos; não adianta jogar pro alto e ver se esfria… Com cotas.

Se vocês realmente querem incluir, comecem a valorizar. Incluam História Negra no currículo escolar. Facilitem acesso a idiomas africanos. Ensinem mitologia africana nas escolas. Incentivem festas africanas pela cidade – Festa da Archiropita pode, mas no segundo em que se menciona a abertura da Macumba pra Iansã, as pessoas se ofendem. Em vez de cota, por que não festa? Até o Itaú apoia nessa.

Querem acabar com essa imagem? Parem de usar palavras africanas de forma errônea (e preconceituosa). Façam mais filmes como Besouro, e menos novelas como Escrava Isaura.

Isso não seria suficiente. Mas este sim seria um caminho. Porque a inclusão social começa na valorização da minoria excluída. Assim, criamos uma relação de equilíbrio. E só aí, podemos começar a incluir.

O Lula sacou isso e o Brasil passou de zero à esquerda no cenário internacional a potência reconhecida. Acreditem, não estamos em posição de negociar com gigantes europeus por cota na ONU ou na OMC. Que tal usarmos a dica e realmente evoluirmos este país? Seria um ótimo começo.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

  • A preguiça financeira do governo brasileiro incide e muito sobre as questões culturais, sem sombra de dúvida. Mas fosse apenas essa injustiça com as raças, estaria eu tranquilo. Só que não. Falando sobre acesso e sobre inclusa, como não citar o governo brasileiro como o maior arrecadador mundial de encargos tributários, e o fato de nunca sabermos ao certo para onde (se é que) está sendo enviada essa alta arrecadação que dá conta da carga tributária em nosso país. Vergonha sim por chama-lo de nosso, quando a tal da liberdade vem a muito tempo sendo comprada a custas exorbitantes em detrimento de outras nações dentro do circuito europeu. Eu, tão incauto e menos apercebido das duras penas que sofre a massa racial brasileira, sequer ouso citar o sistema de cotas como algo igualitário. Não é, e nunca foi idealizado para usufruto de negros ou afrodescendentes, e isto é uma vergonha maior ainda.

    É louvável sim ver iniciativas privadas de incentivo á cultura como as que fazem as instituições financeiras como os bancos, a exemplo do citado Itaú, ou Real (que promove a diversidade entre pares) ou outra qualquer. Isto, porque são submetidos tanto quanto nós ao mal do vexame tributário. Porém, é fato que esse retorno social incutido por instituições privadas ainda é muito pouco perante o que realmente deveria ser realizado, ou o realmente necessário pelo poder público. Passa pela minha mente vil neste instante, imaginar se tais instituições promoveriam a igualdade racial desta forma, aceitando “cotas” de adesão capital onde estes mesmos afrodescendentes ou negros declarados pudessem adquirir sob menores taxas empréstimos de receita ou incentivo para crédito rural, mobiliário, empresarial…

    É de séculos essa discussão de classes sociais, onde o negro, ou o pobre, ou o oprimido ou qualquer cidadão que se tipifique como desfavorecido de alguma coisa, tenha maior ou menor direito sobre outrem. Não é de hoje que esse abuso acontece, e tampouco será amanhã ele solvido pelos governantes (já perdi as pequenas esperanças que tinha perante as urnas, e olha que dizem que ela seria a última a morrer…).

    Fato é que de longa data existem esses problemas no acesso aos direitos dos brancos, em detrimento dos menos brancos. O sistema brasileiro de cotas que os governantes brasileiros bradam a plenos pulmões “ser internacionalmente reconhecido (cole aqui o riso, cof, cof)”, é simplesmente tipificado como uma vergonha. Porém, ainda vale lembrar que entre as próprias classes existe uma disparidade do tamanho do Nilo. Nunca soube de um negro que oferecesse auxílio aos seus, por ser mais apercebido financeiramente. E fato também é que o sistema de cotas ali posto, contempla somente os “com x salários mínimos por família”, que muitas das vezes sabemos são nutridos de outros tantos salários máximos. Onde está uma política de fiscalização decente na questão da educação? Quem recebe o benefício constitucionalmente garantido, realmente é quem deveria tê-lo, é a pergunta?

    Aulas sobre as histórias de outros povos, raças, culturas, e afins, deveria realmente ser matéria “básica” dentro do currículo nacional de ensino. Entretanto, sofremos com a realidade triste de saber que nem mesmo o mínimo é aprendido nas escolas públicas deste país. Revolta-me saber que essas instituições produzem sequencialmente legiões e mais legiões de ignorantes. Pessoas despercebidas de pontos fundamentais para a evolução da humanidade.

    É revoltante realmente, nominar que as minorias são detentoras das cotas, e que isso representa uma grande recuperação social. Minoria, ao meu modo de ver é aquele Seu João, ou aquela Dona Maria que mora embaixo da ponte, e que mal tem o que alimentar aos filhos. Essas são realmente as minorias que deveriam ser assistidas pelo nosso país. Em detrimento dessa falta de carga cultural, abonam essa legião com “bolsas” que tornam o sistema de assistência social o grande redemoinho que é. Muito mais fácil dar a vara, e o título na mão do cidadão, que ensiná-lo a pescar, e o que é o peixe que ele come.

    Ainda sobre o que falei ao início, vivemos abaixo da preguiça financeira nacional, sofrendo e sobrevivendo. Onde estão os governantes (eu quero ignorar saber que estão nas suas casas de praia ou veraneio em Búzios ou Angra), que não fazem por reparar essa nossa falha política de importação que teima por dar falta ao acesso do menos provido ao que lhe deveria ser direito para usufruto? Ou, estamos falando que negros e afrodescendentes tem direito apenas ao “básico” feijão com arroz histórico, filosófico, cultural, financeiro, somente, e não ao que todos os outros brancos lá fora desfrutam?

    Perdoem irmãos, se pequei no excesso de comentário, ou pela falta dele. Mas é apenas “nisto” que me assiste o garantido da vida. Isto posto, porque corri atrás por saber, pois fosse pelo que o governo estabelece… deixa para lá.

  • Lekkerding

    “O Estado” é você. A responsabilidade é sua. Se você vai assumir responsabilidades, Estado, faça direito. Vá lá educar as crianças – e dê aulas de História Negra pra elas. Não venha tentar nivelar por baixo e fomentar tensão racial. Não NÃO queremos ser os USA.
    Não falo aqui de culturas.Todo negro adolescente em qualquer escola – pública ou privada – é obrigado a saber quem e o que começou a Revolução Francesa. E não faz idéia de quem seja Nelson Mandela. Quer incluir? Comece a ensinar (e aprender) esses fatos. Mostre de onde eles vieram, porque de onde você veio, eles já sabem até demais.
    Aprender história não é “opção de valorizar a cultura, que o negro tem que procurar se quiser”. A matéria “História” está nos currículos escolares por uma razão. A História Negra é uma ramificação dessa matéria que too mundo faz questão de ignorar. Ou de fazer como você e fingir que história e cultura são a mesma coisa – e claro, jogar a batata quente no colo dos negros. Eles que se virem, certo?
    Errado.
    Esses dados são bem dúbios desde o advento de 3 coisas: o FIES, o ProUni e as Unibuns. Por mais que eu deteste as Unibuns, elas promovem muito mais inclusão social que essas cotas. Simples: Elas oferecem cursos medianos, com um sistema de suporte aos estudos muito bom, e a preço de banana. E o aluno pode negociar, chutar a dívida, fazer mil acordos… Ele consegue se formar. E consegue pagar sem se atolar em dívidas. Alunos negros estudam nas Unibuns como iguais. Sem essa de cotas. Eles são iguais.
    E costumam se formar com honra ao mérito.
    Pardo, meu caro cidadão, é o papelão da caixa do mercado. Nós aqui somos NEGROS. As diferenças não são econômicas, educacionais, noveleiras ou whatever. É hora de assumir: o problema aqui é a cor que cada um exibe. Esse é o problema inteiro – pilar, teto, e todo o resto dele. Ao tentar reverter isso pra falhas econômicas, educacionais, noveleiras e whatever, você tergiversa (maldita Dilma e sua modinha de tergiversar). Assuma o problema da cor, traga esse problema pra mesa e resolva. Não se esconda atrás dos dados – e da cota de dados. Fica a dica do Lula, mais uma vez: ele nunca fugiu do verdadeiro problema (na política externa). Ele assumiu o que o Brasil era, e o que o resto do mundo pensava do país: um pedaço de terra do terceiro mundo. Aí, ele começou a ensinar aos grandões de fora o que o Brasil era – uma economia super aquecida e cheia de coisas pra oferecer, mas nada besta nos negócios. E veja, graças a essa jogada, hoje o Brasil tem respeito lá fora. Tem poder. Tem valor. E está bem equilibrado no jogo – isso, claro, se a Dilma parar de abrir a boca pra falar asneiras.

  • Wilson Araújo

    Gizuz … Forçar os alunos no geral a aprenderem sobre cultura negra em um país que não consegue defender a inclusão de filosofia e sociologia como matérias básicas na grade escolar… Ideia interessante mas não ataca o problema. O negro procura a opção de valorizar a cultura (se a procurar) caso tenha tempo e dinheiro para isso. E não é no país com o salário ideal médio no valor de 2300 reais e onde o negro ganha em média 800 reais que essa tarefa seja comum. Esse é o dado financeiro. O problema de educação a nível superior é pior ainda. Somente 2% dos formandos se declaram negros. Em cursos como medicina públicos então …

    Cotas não são para amenizar problemas de percepção cultural ou da alegria em ser negro. Para isso devem ser feitas outras ações, que podem até mesmo incluir facilidades em incluir seminários sobre cultura negra na rede pública e celebrações típicas dos ritos afro, abertura de centros culturais e distribuição de material didático desmistificando a cultura negra como do mal. Nisso vc se saiu muito bem no post.

    Mas na questão financeira e de acesso a ensino superior a coisa é bem diferente. Ou o Estado assumia a geração de programas de subsídio a criança negra até sua maior idade, igualando assim a condição de vida padrão das crianças que se intitulam brancas e que irão acessar as vagas do ensino superior público (composto quase que exclusivamente por brancos, provenientes de escolas particulares e com renda salarial familiar acima de 5 salários mínimos nas melhores faculdades) ou facilita o acesso do negro ja crescido a faculdade pública / privada. http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/jpe/article/viewFile/15028/10076

    “De acordo com os estudos do inEP, por volta de 50% dos jovens com idade entre 18 e 24 anos de famílias com renda familiar superior a cinco salários mínimos, estão no ensino superior, enquanto que os estudantes oriundos do extrato de famílias com até três salários mínimos ficam abaixo de 12%, conforme matéria da revista Ensino superior. Como efeito da renda familiar, temos a redução da demanda da população potencialmente candidata ao custeio próprio do ensino superior.
    Moura Castro (2006) assinala que a elitização do ensino superior privado é tão grande quanto a do setor público, onde 70% dos seus ingressantes são egressos da camada populacional dos 20% economicamente privilegiados no país.”

    Como pode ser visto, a presença na faculdade parece estar (eu diria que com certeza está se eu não estivesse com preguiça de procurar mais artigos) ligada a situação financeira do brasileiro.

    Infelizmente, não é simples de encontrar famílias negras no extrato da sociedade que recebem mais que 5 salários e muito mais difícil ainda de encontrar com de 10 salários +. Então se o Brasil quiser atacar a questão do abismo existente que é a diferença econômica e educacional entre as famílias que podem se intitular negras ou pardas em relação as famílias que podem se declarar brancas então não da pra tergiversar os pilares do problema. Estes tem que ser encarados na raiz real.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.