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Um reflexo do que passou

Olhem as horas. Cá estou. Calma, deixem explicar: não foi de propósito. Li este texto e resolvi comentar ouvindo Man in the Mirror, do Michael Jackson. Não era o planejado, mas parece adequado retomar as postagens de onde parei – e vocês lembram, certo? Esta é uma batalha que nunca cansarei de lutar. Pode soar piegas, mas a mensagem da música é muito antiga – e todo mundo adora colar no Facebook e dar autoria a Clarice Lispector: seja você a mudança que quer no mundo.

Não seja o retrocesso. Não seja da Igreja Evangélica dos que Não Entenderam a Bíblia (a mãe de 99,99% das igrejas evangélicas no Brasil e no Mundo). Não seja da Igreja Católica Deturpadora de Palavras Romanas ou Não (mãe de todas as igrejas católicas, mórmons e afins do planeta). Seja da Igreja da Mudança. Seja da Igreja Racional, como o Tim Maia. Escolha o que quiser, mas escolha pensando naquela pessoa do outro lado do espelho. Aquela que quer ser a mudança no mundo, e não o retrocesso.

Segue o comentário que virou enciclopédia. Como sempre, não me responsabilizo por eventuais cataratas, enxaquecas, desilusões, crises existenciais, rompantes de fúria e afins.

Algumas pesquisas feitas por ONGs de proteção e resgate animal (pesquisas informais, devo avisar) revelam que a maioria dos agressores tem histórico com isso. Ou seja, a pessoa que amarra o bicho no carro e sai arrastando, normalmente se divertia fazendo cometa em gatos quando criança. Vejam, eu disse “normalmente”, não “eventualmente”. A conduta é comum e contínua. A pessoa não surta e faz mal ao outro ser vivo. Ela acha isso normal. Cresceu fazendo isso.

É o tipo de comportamento que precisa ser reprimido. E o tipo de pessoa que precisa ser punida para ser reeducada – ao contrário do ser que foi duramente punido por levar um pacote de pão da padaria sem pagar.

Acredito que a banalização do sistema não ocorre no clamor por endurecimento da lei. A banalização vem do próprio sistema judiciário, que aplica a legislação penal sem o devido cuidado ou critério. Temos programas de reeducação previstos para o ser que levou o pacote de pão, para o ser que matou o Zé, para o ser que vendeu lança-perfume e para uma série de outros seres que infringem as leis. Por que a mesma punição é sumariamente aplicada a todos? Somos nós, que queremos um sistema funcional – mais enxuto e objetivo nas leis e mais criterioso na aplicação – que banalizamos? Mesmo? Acho que não.

Você fala em colocar estes agressores prestando serviços em abrigos e canis. algo similar a tentar recuperar quem pratica violência sexual contra crianças com prestação de serviços em creches e escolas. Já imaginou o quadro? Eu imaginei. Não ficou bonito.

É complicado afirmar que opiniões já caíram no esquecimento. A tendência das pessoas com a brutalidade de crimes domésticos é não esquecer. Ninguém esquece Isabella Nardoni. Ninguém esquece João Hélio – ele foi utilizado numa dessas correntes citadas no texto, pedindo o fim da impunidade – e ninguém esquece a cadela Preta. As dálmatas gestantes que morreram na mesma semana da yorkshire Lana não passaram em branco. E o pequeno queimado pelos madeireiros também não vai passar. Ah, sim: buscando pelo Twitter, você encontra manifestações constantes falando da criança. As pessoas estão comentando e blogando o absurdo tendo apenas uma fonte: o texto que você forneceu, publicado há 8 horas (assim diz o cache do Google). O caso do yorkshire demorou alguns dias para cair no mainstream. Provavelmente, é o curso que toma esse caso. E não vai passar.

Ainda defendo a reformulação da lei e o reconhecimento do crime contra a vida aqui. Isto não é menor potencial ofensivo: uma vida foi tirada. Pode não ser uma “preciosa” vida humana – que de preciosa e especial não tem nada; somos racionais e tivemos educação suficiente pra saber que somos animais, embora tenhamos aptidões diversas – mas é uma vida. Nossa Constituição garante a inviolabilidade da vida. Ela também adota como missão a construção de uma sociedade livre, justa e solidária. Ela vai mais longe e estabelece a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Já não somos livres, pois escolhemos cercar a casa e ver o Faustão em vez de assumir a responsabilidade enquanto povo. Já não somos solidários, eis que achamos por bem ignorar nossas mazelas expostas, achando que é “problema dos outros”. Sejamos justos. Ser justo aqui é reconhecer que a vida do cachorro, do gato, do índio e do filho do Jader Barbalho é VIDA. A espécie é irrelevante e ninguém deveria estabelecer isso como critério de importância jurídica, discriminando outras que nem voz tem e são obrigadas a conviver. É vida, e ponto final; e certamente não deve ser violada. Em sendo, que se reconheça e se trate como tal: como uma vida, sem essa de “abuso e maus tratos”.

Tratar um crime contra a vida assim é um desrespeito à própria, que tanto “valorizamos”. Adequado (no mínimo) dizer que é uma violação constitucional acreditar que nestes termos, há efetividade nas leis de proteção aos animais.  E convenhamos, quando o pensamento jurídico em voga contraria a Lei Maior em seu núcleo, é hora de pisar no freio e rever os passos. Obviamente, estamos fazendo errado.

É isso, pessoas.  Começamos 2012 a todo vapor. Até a próxima.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

  • Lekkerding

    Muito obrigada pela visita! Espero que goste dos textos!

  • Encontrei seu site sem querer….buscando fotos e encontrei 2 lindas!! Com mensagens PERFEITAS!! Seu blog é uma inspiranção e tanto!
    Gostei mesmo!!
    To seguindo!!!

  • Lekkerding

    Que todos nós sejamos o que queremos no mundo… Sem sermos um retrocesso nele. Obrigada pela visita =)

  • Bia

    le, adorei seu blog. a violência, infelizmente, faz tão parte do nosso cotidiano que as pessoas criaram uma visão errada sobre ela. caiu na normose da vida, é considerada corriqueira e normal na nossa sociedade moderna.
    isso não pode continuar assim. que em 2012 nossa indignação seja refletida em ações pra MUDAR isso. é o que desejo também 🙂

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.