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Uma carta para Luciana Genro

Olá.

Preciso desabafar: você a pior coisa daquele momento. Te deram a palavra e você… Nada. Por que você ficou calada?

A sua biografia te declara advogada. Atuante em Direito Penal. Você sabe o que é um tipo penal, e o que fazer quando um destes aparece na sua frente. Também sabe que o casamento civil já é igualitário, embora insista no contrário. Mas não vou falar disso – é uma afirmação menos grave que a da outra, aquela do coque.

Eu ainda não cheguei lá. Mas você está do outro lado desde 2011. Saber disso me deixa ainda mais perplexa. Decepcionada. Envergonhada. Se eu estivesse no seu lugar, naquele momento, faria o que sempre fiz – e provavelmente não ficaria bem a baixinha invocada dando mata-leão no velhinho pra conduzir às autoridades. Mas eu faria algo.

Você me pede voto, prometendo fazer algo.  Seu manifesto promete “lutar por quem não tem voz”. E naquela hora, diante do horror, você podia ter tornado isso realidade. Os outros estavam amordaçados pelas regras do debate; mas a voz era sua, pra rebater, pra me dar voz, e me fazer acreditar. E ali… O silêncio.

Você calou, Luciana, e seu silêncio foi constrangedor. Tendo a faca, o queijo, a voz e o direito – e ciente de tudo isso, Luciana… Você calou. Sabendo da sua importância, só fez silêncio.

A Constituição declara os advogados indispensáveis à administração da Justiça. O Estatuto da OAB refere a advocacia como serviço público e função social.  O Código de Ética os nomeia defensores “do Estado democrático de direito, da cidadania, da moralidade pública, da Justiça e da paz social” e manda “atuar com destemor, independência, honestidade, decoro, veracidade, lealdade, dignidade e boa-fé”. É muita responsabilidade que você carrega nos ombros.

O que você faz, Luciana, tem um papel fundamental para proteção dessa sociedade. Quem exerce a advocacia deve saber que a carreira vai além de fazer boas petições e recitar os dispositivos legais. E que o trabalho não acaba no fim do expediente.

Defendemos interesses das pessoas, e colaboramos com a evolução da sociedade para o que desejamos a ela. Quando fizemos a Constituição, queríamos um país justo, solidário, onde se preza pela igualdade e se abomina o preconceito. Nós trabalhamos todos os dias para consolidar esse desejo, afrontado por aquele… Ser. Na sua frente.

Onde você estava, Luciana?

Onde você estava, Luciana?

Era seu dever, Luciana. Você é indispensável para que esta sociedade seja justa. Você é candidata por isso. Sua atuação, naquele momento, era a consagração de tudo que você prega e representa. E você escolheu calar.

Naquela hora, era tudo que você não podia fazer. A advocacia perdeu mais um pouco de seu lastro, e teve no seu silêncio um dos piores algozes. Você foi Brutus. Você, Luciana, foi Bolton naquele debate. Seu silêncio nos jogou aos leões. E fomos massacrados quando aquelas palavras prevaleceram, incólumes. Você poderia ter dado voz de prisão. Poderia solicitar providências ao mediador, ou mesmo a presença de autoridade eleitoral naquele momento. E você sabe disso. Você sabe de todas as coisas que poderia – e deveria – ter feito. Na hora, elas já passavam pela sua cabeça. E você calou.

No dia seguinte, muito alarde, muito repúdio, muita representação. Mas o dia seguinte, Luciana, é tarde demais. O estrago já estava feito. A credibilidade, abalada. A fé, quebrada. E o voto… Desfeito. Eu prefiro votar em mulheres, sempre – mas os demais exemplares não são confiáveis. Você parece uma boa candidata, apesar do partido que carrega. Mas veio o debate. E foi embora, levando minha provável intenção de voto junto.

É isso, Luciana. Era o que eu queria dizer. Você não vai ler, deve estar muito ocupada promovendo coisas da campanha. Caso você leia, eu espero que reflita. Porque há mais na política que muito falar e nada fazer. E não há na advocacia nada mais importante que o espírito das leis.

Até.

Esse post é um desabafo pessoal, e aproveita a blogagem coletiva do ROTAROOTS de setembro. A temática sugerida: escrever uma carta pra alguém. Uma carta nunca escrita antes, sobre algo necessário a ser dito. Se quiser conhecer o grupo, veja o povo no Facebook e se inscreva no Rotation.

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Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.