Vamos NÃO falar disso

As pessoas perguntam por que eu não falei do aconteceu com o goleiro do Santos. Sinceramente, não queria responder. Mas vocês gostam de sofrer, então lá vai.

Discriminação, pra mim, é pobreza de espírito. Não gosto de falar disso, porque estou com Caco Antibes e não abro.

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Sempre tem um idiota que faz escândalo na padaria porque “gente escura vem depois”. Sempre tem uma velhinha que pergunta se você conhece “meninas ajeitadinhas nesse tom pra atender na loja”. Sempre tem o infeliz que diz pra pentear o cabelo, porque está “afro” demais.

Tenho uma coleção peculiar de lembranças de discriminação aberta. O que citei antes? Aconteceu comigo. Teve o ser que parou o carro ao lado do meu, deu risada e disse “que belezinha, os macaquinhos passeando”. Apontou o banco de trás, eu e minha irmã ali. Crianças. “Olha as mini-macaquinhas”.

Teve o ser na escola, que resolveu me chamar de carvão queimado. Lembro bem dele também. Ele mora no mesmo bairro que eu – antes, cruzava com ele todos os dias, a caminho do trabalho. A cicatriz que eu pus na cara dele aos 9 anos ainda está ali.

As minhas histórias dariam excelentes filmes para o Padilha. Mas é desnecessário dar destaque, se posso dar um basta. Gente assim, idiota, nem precisa de manual. Eu sei o que devo fazer com eles, como o Aranha soube fazer no estádio. Lugar de gente pobre de espírito é na #@$@#$@$. Na cadeia também. E na sarjeta, porque abalo indenizável sangra.

Os Lannisters sempre mandam boas lembranças de casamento. E de dano moral também.
Os Lannisters sempre mandam boas lembranças de casamento.
E de dano moral também.

O problema acontece quando as boas intenções aparecem. Porque não tem como lidar com o inferno das boas intenções.

Tenho a mesma cor de pele da Beyoncé. Mas sempre tem alguém que diz que sou índia e se surpreende com a resposta, como se fosse anormal uma pessoa de pele negra ser… Bem… Negra.  Aí vem a pergunta: “mas é misturada com japonês, certo? Você tem traços delicados”.

Tem gente que me descreve como “parda” e fala que meu cabelo é “muito bom”.  O legal – mesmo – é a pessoa que olha pra mim, do alto de sua descendência sueca, e fala que eu não sei o que é racismo, porque sou aceitável para a sociedade. São noções esquizofrênicas.

Parece que precisa me justificar, que tem que ter algo claro na árvore genealógica. Que tem que elogiar meu cabelo, como um bolo que deu errado, mas “fala que tá bom, senão ela chora”. É um medo louco de reconhecer que sou negra, seguido dessa necessidade de mostrar que estão bem comigo mesmo assim. Tipo “eu tenho medo desse negócio que você é, mas tudo bem”. Aham.

O Brasil tem um problema sério com a minha pele, com o meu cabelo, meu nariz, o tamanho da minha bunda, minhas gengivas manchadas e meus dentes grandes, dentre outras coisas. Do Aranha também. E haja terapia, porque o Brasil não sabe lidar com isso.  

É a parte que não sofre desse mal, ou que tenta resolver esse problema sério, que complica muito.É tudo muito bem intencionado, só que os esforços, às vezes, atrapalham.

Sabe quem essas boas intenções ajudam? A mocinha pega no flagra. Ela pode ser recompensada por ser uma criminosa, e a culpa será das pessoas super bem intencionadas e dispostas a acabar com o racismo que foram lá e apedrejaram a casa da menina, e fizeram ameaças de morte.

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O Aranha? Está na mesma, como eu. O povo das boas intenções é assim mesmo: eles se esquecem da vítima. O foco é o ofensor. Parece esforço coletivo inconsciente pra ajudar quem fez a caca a ganhar, em vez de tentar consertar. Boas intenções. Péssimos resultados. O inferno? Lotado.

A menina cometeu um crime, como outros naquela arquibancada. Eles devem ser punidos, na forma da lei. Perseguidos por quem de direito (Aranha, estamos aqui para defender seus interesses caso queira, sangre todos em danos morais). E só.

Mas vieram as boas intenções, e o que era simples se tornou complexo. Parabéns aos envolvidos. Darwin Awards coletivo aí.

Vou dizer a vocês o que digo aos meus amigos: PAREM. Essa coisinha bem intencionada só põe a luta contra a discriminação na lama. Pare de chamar as pessoas de “nego”. Pare de defender cotas porque “os negros precisam de uma chance”. E pare de tentar repudiar atos como o que ocorreu com os gremistas com o furor de um super sayajin em chamas.

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Se você realmente repudia o preconceito, guarde as boas intenções e use o bom senso. O bom senso coloca essa menina no banco dos réus; as boas intenções levaram a menina para o sofá da Fátima Bernardes.

Pense bem nisso.