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Verdades inconvenientes sobre propriedade intelectual

Estou morrendo de preguiça de escrever, mas fiz essa promessa uma vez. Aí, duas vezes. Estou tomando vergonha na cara porque já ia prometer pela terceira vez.

Nesse blog, tem uma campanha anti-kibagem. Não é o único lugar onde isso habita. Mas ao que parece, essas campanhas não funcionam. Tem gente que não sabe o que é kibagem, ou confunde com outras coisas, ou não está nem aí. Recentemente, soube de uma pessoa que tem artes lindas. Um dia, alguém se interessou por um trabalho dela e perguntou quanto ficava pra fazer um daquele. Antes que ela pudesse responder, o sujeito sapecou o dedo no print screen, pegou o trabalho dela, botou outra cor, meteu uma marca d’água e saiu exibindo por aí, como se dele fosse.

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Apresentou na faculdade, como TCC, e foi aprovado. Usou na agência pra tentar ganhar um cliente. Tudo lindo e azul, como a vida deve ser. Postou no Facebook o retrato do sucesso. Só um detalhe: ele construiu tudo isso em cima de um crime, e ainda enrolou a faculdade junto.

Num debate no Facebook sobre ética, vi pessoas defendendo a kibagem a ponto de dizer que não é ilícito porque “depende do quão igual está ao original” e porque “ninguém vai saber se foi kibado ou não”. Pra eles, a definição legal da kibagem era questão de opinião. Vocês acham que estou mentindo? Pois eis o print da discórdia.

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Não sei o que preocupa mais: isto dito, ou isto CURTIDO

Se a ficha ainda não caiu: kibagem é internetês para plágio. Kibar é copiar as coisas que alguém fez e exibir como se fossem suas. Não estou aqui c**ando regras e nem quero censurar a internets, mas kibar não é rebeldia contra as grandes corporações, não é o aperfeiçoamento de ideias, não é homenagem, não é inspiração, nada disso. Kibagem, meus caros, é crime contra a propriedade intelectual. É você prejudicando outra pessoa, pelo simples fato de não conseguir produzir algo próprio. E nenhuma dessas justificativas – usadas por profissionais de todos os meios que envolvam a produção de conteúdo – consegue apagar isso.

As pessoas insistem em acreditar que propriedade intelectual só se aplica a música, filme e tela do Cândido Portinari. Então, gente: não. A propriedade intelectual – ou o direito autoral, como preferir – se aplica a todas as coisas criadas pelas pessoas. Numa definição bem simples, se você queimou os seus neurônios pra imaginar algo e depois usou qualquer ferramenta disponível pra materializar o que você imaginou, parabéns, você é um proprietário intelectual: dono e detentor de algo surgido da sua capacidade de pensar. Escreveu uma coisa bacana? Fez uma montagem boa? Fez um desenho (tradicional ou digital) bonito? É, você é um autor.

Yay.

Yay.

E não interessa se você fez uma escultura e deixou na rua, ou postou um poema no Facebook, ou colocou seu desenho no deviantART. Também não interessa se você é o Romero Britto, ou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco. Fez? É seu. E suas criações não estão disponíveis pelo simples fato de estarem à mostra. Entendam isso: não é porque a coisa está na internet que ela é “do povo”, ou como falaram lá no tópico, “bem de informação pública”. Aliás, eu não sei que baboseira é essa. Nem o Google sabe (e se ele não sabe, é provável que não exista). E olhar algo e imaginar uma construção sua a partir do que você viu é completamente diferente de pegar a coisa, mudar o RGB dela e postar por aí. Então não, kibar não é inspirar. E a obra alheia não é “informação pública”. É obra. É fruto do trabalho alheio. E deveria ser respeitado como tal.

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Tá na hora da garotada entender. Se eu perdi horas da minha vida escrevendo algo no Facebook, ou fazendo um desenho no deviantART, aquilo continua sendo meu. Você não tem direito nenhum sobre as obras alheias, nem mesmo pelo bem dessas baboseiras inventadas nas faculdades de Comunicação Social pra fazer do errado a coisa certa. Não pode “retrabalhar” e nem “alterar” a seu bel prazer. É MEU. E não te dei licença. Se você mexeu sem minha autorização, você violou minha propriedade. É crime, mesmo que você diga que é reciclagem, mas com o seu nome em vez do meu. E não interessa como, ou quanto, você distorça a minha obra pra parecer sua. Também não adianta dizer que não foi kibe porque “tem fins meramente acadêmicos”. Vai continuar sendo minha obra, e você vai continuar sendo um ladrão – porque é isso que o kibador é – inútil.

Motivos, finalidades e níveis da kibagem, quando se trata de propriedade intelectual, simplesmente não interessam. Porque a coisa, na lei, é simples: você não pode kibar. Fim. A lei não faz exceções. E o cumprimento dela não é questão de opinião. É como diz a Consciência: está na lei, e eu não discuto com a lei. Aliás, quanto mais você se debater nisso, pior vai ficar. Pode demorar, mas a sua hora chega, e sim, todo mundo vai saber – e você vai ficar na lista negra do mercado por um bom tempo. Acha que não? Pergunte ao Rod Stewart.

Aliás, pergunte ao Jorge Ben. Ele responde melhor.

Aliás, pergunte ao Jorge Ben. Ele responde melhor.

É muito importante que se entenda isso agora, num momento em que a internet mais parece o Departamento de Clonagem do Dr. Moreau. As pessoas precisam pôr isso na cabeça, antes que mais gerações estejam perdidas nessa linha de pensamento. Elas precisam entender que kibagem é uma coisa criminosa, que o autor vai saber sim, que não depende do tamanho da distorção, ou de opinião.

E sabe quem tem que ensinar isso pras pessoas? Não sou eu. É você, proprietário intelectual e autor de coisas kibadas internet afora. O povo continua kibando porque sabe que a impunidade é certa; você, autor, precisa quebrar esse ciclo. Precisa monitorar suas criações constantemente – existem softwares pra isso, mas não tem remédio pra chatice que é ficar procurando. Você precisa consultar um advogado no segundo em que encontra seu trabalho kibado, e perseguir seu ladrão até as últimas consequências.

Se vocês não lutarem pelo que é de vocês, os kibadores nunca vão respeitar. Porque o kibador, meus caros, é meio lerdo. A genética não foi gentil com ele. E portanto, faltam requisitos mínimos de inteligência pra que o kibador desenvolva Semancol.  Se você não fizer isso, caro autor, as pessoas vão levar crédito$ em cima do seu suor, e você vai viver encarcerado no medo de achar suas coisas por acidente como pseudopropriedade alheia.

Desperte seu sayajin e vá defender seus direitos autorais!

Desperte seu sayajin e vá defender seus direitos autorais!

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.