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Vinte anos de um remedinho terrível

Não, vocês não estão alucinando, tem texto novo e vocês podem continuar lendo. É que eu não podia deixar de comentar isso: Jagged Little Pill fez 20 anos. Ia passar batido, se não fosse esse texto do Judão pular na timeline. A vidinha é feita de detalhes, e às vezes a gente não percebe as diferenças que eles fazem. Tá, um álbum dos anos 90 fez 20 anos. E daí? As fãs de Taylor Swift ainda não sabem. Elas mal fizeram uma década de vida.

Alguém precisa contar que Alanis Morissette é DEUS.

Alguém precisa contar que Alanis Morissette é DEUS.

Esse foi o primeiro álbum da Alanis Morissette a ter impacto global. Legal, Alanis. Parabéns. E enquanto lia o artigo sobre a parceria entre ela e o Glen Ballard, fui lembrando o dia em que comprei o CD dela. Como eu enchia a paciência da vizinhança toda vez que Ironic aparecia no Disk MTV. Eu não me identificava com _nada_ no cenário musical da época… Até ouvir Hand in my Pocket.

Alanis é uma das maiores influências na música. Ela abriu as portas pra gente como a Pink, a Shakira, a Florence Welch, a Kelly Clarkson, a Emily Haines, e tantas outras… Mas você já parou pra pensar no que esse álbum fez com a sua vida? Eu parei. Fiquei surpresa quando li o trecho de Not the Doctor, e ouvi os acordes como se estivesse com a música rolando pelo Spotify. Fiquei mais surpresa ainda quando continuei cantando, depois do fim do trecho. Eu não ouço esse álbum há anos. Eu nem me lembrava dele. Mas a associação foi instantânea. A música – e as lembranças dela – fluíram como se tudo fosse ontem.

Achei a caixinha do CD cheia de poeira. E dentro dela, um disquinho preto, com aquela tipografia típica de máquinas de escrever pertencentes a pessoas compulsivas. O que a gente não sente hoje, ao martelar os teclados, ficava visível na datilografia. Eu ainda lembro o que é se empolgar pra escrever na máquina, e ter que tomar cuidado pra empolgação não marcar demais uma ou outra letra no papel. As letras no CD estão todas marcadas. Ela queria que todo mundo ouvisse, e entendesse. Ela provavelmente estava empolgadíssima com o próprio álbum. Eu também estava, quando comprei. Lembro como era extraordinário ouvir o CD o dia inteiro – finalmente uma mulher cantando que não falava de bailinhos e garotinhos e coraçõezinhos irritantes.

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Não sei para outras pessoas, mas ouvir Alanis naquela época foi como o primeiro par de óculos da vida. Hoje, a galera debate feminismos e liberdades das mulheres; mas naquela época, a única voz tratando disso era dela. As 12 músicas + surpresinha no final tem pouco mais de uma hora, no total. E quando a voz dela chorava no último verso de Your House (é o nome oficial daquilo que você passou a vida toda chamando de “desabafo” ou “faixa escondida”), parecia que nem não tinha passado 15 minutinhos.

Jagged Little Pill fez duas décadas. Vinte anos. Artistas lançam álbuns toda hora, e poucos têm importância suficiente pra fazer a gente pensar no impacto deles quando fazem aniversário. Acho que dá pra contar nos dedos quantos desses pesam na sua vida toda, mas conservam aquela impressão de primeira vez. Coloquei aqui pra tocar. E mesmo lembrando várias situações encaixadas e sabendo a música de cor (inclusive as paradinhas que ela dá pra pegar fôlego), parece que é a primeira vez que All I Really Want toca na minha orelha.

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Poucos são os artistas que podem dizer que influenciaram vidas. De verdade. E ouvindo esse CD, acho que Alanis pode se considerar nesse clube seleto. Suas músicas continuam mudando e moldando vidas, como o Pearl Jam, o Rush, a Janis Joplin, o David Bowie, os Beatles e o Metallica (pra nomear alguns). Parabéns, Alanis. As adolescentes de 1995 que hoje usam o cérebro agradecem.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.