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Violência doméstica e o terror em Silent Hill

Eu não ia dizer nada a respeito, mas uma discussão num fórum me fez ver que era importante falar algo aqui também. Acho que ficará comprido, mas eu juro que editei bastante. Não sou responsável pelas cataratas e afins.

Violência doméstica é um tema espinhoso. Não gostamos muito de falar nisso, mas está lá fora. Milhões de agressores no mundo estão, nesse momento, aterrorizando a vida de suas esposas e esposos. Filhos e filhas estão sendo treinados nessas “artes” para se tornarem cidadãos disfuncionais. É um problema SÉRIO. Não é exclusivo de “terceiro mundo” – o campeão nisso é o país do tio Obama – e não é fácil de identificar. É uma das piores coisas que se pode fazer a outro ser vivo: aprisioná-lo dentro de si mesmo, no terror absoluto.

Mas enfim. Enquanto sociedade, pouco falamos disso. É mais legal falar do fim da novela. Mas um dia, a gente chega lá. Chegamos lá no caso do estupro, certo? Demoramos décadas para entender que não é culpa da mulher quando isso acontece, e que estuprador não é “um cara com necessidades”, como disse o ex-deputado Severino Cavalcanti. O estuprador é um criminoso perigoso para a sociedade, o que traz o Ministério Público pra perseguir o cara. Demorou mais ainda pra sociedade entender que a mulher não tem culpa e que os estupradores não fazem favores a ninguém, contrariando a posição “humorística” do Rafinha Bastos. Ela ainda não entendeu – a existência do Rafinha Bastos prova isso – mas pelo menos, começou a ouvir.

Quanto à violência doméstica, ainda estamos engatinhando. Demorou muito pra sociedade entender que não é porque é marido e pai que o cara é amo e senhor das pessoas que habitam a casa. Demorou 87 anos pro direito brasileiro parar de tratar os direitos de maridos e pais como “pátrio poder”. Demorou 90 anos pro direito reconhecer esse tal de pátrio poder ameaça o instituto familiar e criar um mecanismo de proteção pra quem vive nisso. E demorou 94 anos pro direito brasileiro reconhecer que esses abusos estragam completamente o instituto e ameaçam o futuro do Brasil.

Demoramos quase (ou mais de) 1 século pra entender o que anda acontecendo dentro da casa alheia,  mas estamos muito longe de achar soluções reais. Porque não tem chave mágica pra destrancar uma prisão psicológica e não tem um Chirrin-Chirrion pra terror absoluto. E definitivamente, botar na cabeça de uma vítima dessas que ela “tem que aceitar a responsabilidade porque deixa o imbecil agressor deturpado fazer dela um brinquedo” é um retrocesso em todo esse trabalho de semancol social.

É por isso que venho aqui falar. Porque muito me espanta ver argumentos assim, nesse caso específico. Dizer que a vítima – porque somos todos inteligentes e sabemos bem que atualmente o papel de vítima da violência doméstica não é exclusivo da mulher: isso existe em lares gays, existe a situação inversa (sim, existem mulheres que aterrorizam seus maridos e já se discute o estupro feminino) e existe a violência de filhos contra pais – tem parte da responsabilidade, porque deixa que isso aconteça. Ela permite, ela não sai dali, ela não busca ajuda, ela não cria coragem e reage, então é culpa dela também.

É o tipo de pensamento que destrói todas as pontes que tentamos construir nesses quase (ou mais de) 100 anos tentando entender o que acontece na casa alheia, e leva todas as vítimas de volta à prisão do silêncio. E não pode prosperar. A culpa não é da vítima. A culpa é do imbecil que acha que isso é bacana de fazer. O ser que decide torturar outro ser dentro de casa é que é o culpado. O ser que decide abusar de alguém da forma mais vil possível é o culpado. A culpa não é da pessoa que caiu nesse alçapão de medo. Não digam isso, porque vocês não sabem o que é passar um dia inteiro com medo de respirar.

Alguém aqui conhece Silent Hill? Não? Nem todos gostam de games. Mas tem um thriller bacana de 2006, com Sean Bean no elenco. Assistam e entendam a comparação a seguir. Porque um dia na vida de uma vítima de violência doméstica equivale a uma temporada inteira em Silent Hill.

Imaginem agora que vocês fizeram a curva errada na estrada e entraram nessa cidade. Só que aí, a estrada caiu. Não tem volta. O caminho para o mundo que vocês conhecem foi cortado, e vocês agora precisam se virar numa cidade estranha e cheia de coisas medonhas. Isso, enquanto está tudo “normal”. Você precisa tomar muito cuidado com seus passos, porque a qualquer momento pode desencadear isso aqui:

Quando isso acontece, quando esse som horrível – que pode se traduzir num grito, num olhar torto, num sorriso forçado durante uma festa – ecoa nos ouvidos, quando o mundo escurece, esfarela e apodrece diante dos seus olhos, você sabe que seus piores pesadelos são contos de fada perto do que está por vir. Você não sabe de onde isso vem. Não sabe como, quando, por quê. Você não tem noção de como as coisas chegaram a esse ponto. Você só sabe que quando isso acontece, você estará sujeita aos piores horrores já imaginados e/ou realizados na história da Humanidade. Não tem nome, isso que te acontece. Não existem palavras suficientes pra descrever. Mas sempre tem um filme de terror que dá uma breve noção.

Aí fica a ironia da coisa: essa cena é grotesca. Imagino que quem ainda não viu o filme ficou assustado com o desespero da atriz na cena. Quem viu o filme e é fã do jogo, teve um frio na barriga. Mas essa é uma das cenas mais leves do filme. Se você ficou assim com esse trecho de ficção, que é leve, imagine quem vive isso. Por favor, imagine aí como se sente a pessoa que vive o terror em Silent Hill dentro de casa. Tem certeza que a culpa é dela?

Tem certeza que a pessoa quer o inferno pra vida dela?

Pensem nisso quando se depararem com alguém cheio de hematomas por aí.

O monte de campanhas, leis, treinamentos, enfim, tudo que fazemos hoje é tentativa de reconstruir aquela estrada que caiu quando a curva errada levou seu carro a Silent Hill. Mas nós não podemos entrar na cidade e te tirar de lá. Nós vemos o pesadelo de camarote, enquanto vizinhos, ou pela TV, quando o Datena mostra mais uma vítima encurralada nos labirintos feitos pela Escuridão, sem ter ideia de como sair dali. A Escuridão costuma cegar, ensurdecer, emudecer e anestesiar. E nada disso é culpa da vítima. A culpa é do agressor. Sempre. A culpa é do imbecil que acha divertido fazer da vida de alguém dos filmes de terror mais insanos e grotescos da face da Terra.
Vez ou outra, você consegue ouvir um eco e começa a caminhar da direção certa. Mas a Escuridão dá um jeito e te puxa pra dentro de novo – às vezes, isso se traduz num único coro: “a culpa é sua, você veio a Silent Hill porque quis e se não sai, é porque quer ficar”.

Esse eco vai fazer você se perder de novo no inferno. A culpa continua não sendo sua; é do agressor… E do eco horrendo, que a Escuridão lança no ambiente. Esse pensamento, pra mim, é exatamente o que permite que agressores proliferem e que a Escuridão continue. É o que os legitima. Os agressores ouvem as pessoas dizendo “é culpa da vítima” e se sentem no direito de continuar. Afinal de contas… Se a culpa é da vítima, ela está errada. E o agressor está certo.

Isso não pode ser verdade. A culpa, repito, não é sua. E não é da vítima. A culpa é só do agressor. É ele quem está errado. E é ele quem deveria ser julgado. Ele deveria se perder nos ecos da própria escuridão. E você não tem nada com isso. Nem a vítima.

Pensem nisso quando virem um vizinho com o olho roxo. Vocês vão dizer que é culpa dele e empurrá-lo de volta para as profundezas de Silent Hill? Ou vão tentar tirá-lo desse lugar terrível? Vocês dirão ao agressor que ele está certo, ou vão ajudar a acabar com isso?

Essas respostas certamente contarão um pouco mais sobre que tipo de pessoas vocês são. Mas essa é só minha opinião.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

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  • Lekkerding

    Normalmente, a vítima que acha o agressor “bonzinho” já sofreu tanto, mas tanto, que inverteu os valores. É um transtorno chamado Síndrome de Estocolmo, onde a pessoa, pra não enlouquecer diante do trauma, inverte tudo. O mau fica bom, o bom fica mau. E geralmente, dessa síndrome pra estágios piores, é um passo só. É aqui que você tem um verdadeiro estado de perigo iminente – porque ela pode surtar, matar alguém, e pela inversão de valores, achar que está tudo bem.

  • Rafael Bortoletto

    Como sempre, tentam transferir a responsabilidade das coisas para outras pessoas. Fico imaginando um agressor que diz “Não é culpa minha pois, a vítima se deixou abusar não denunciou”. Isso demonstra a frieza com que as pessoas que cometem tais atos agem e pensam.

    Agora, o problema é quando a vítima se acostuma ao abuso porque tem muita vítima que ajuda o agressor seja com medo do mesmo(a) ou porque pensa que no fundo é uma boa pessoa. Vai entender, né?

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.