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Viva a sociedade adormecida

Considerando que daqui a pouco teremos eleições, e que vocês andam ocupados em gongar o sistema no Facebook sem fazer nada a respeito, e achando que quem chama a atenção para os absurdos que vocês dizem é inconveniente, segue o texto.

Raul Seixas adorava a sociedade alternativa, certo? Nós vivemos na sociedade jurídica. Ok, ninguém entendeu o que isso quis dizer. Vamos exemplificar.

Suponhamos que um vizinho esteja reformando a casa, e que isso esteja roendo a sua casa por osmose. Suponhamos que ele também não queira conversar. O que você faz? Chora? Mata o vizinho? Chama o Batman? Todas as anteriores? Não, você procura um advogado. E faz valer os seus direitos – porque todo mundo tem desses.

E se você quiser que seus convidados fumem livremente na sua festa de casamento, sem a lei anti-fumo incomodando? O que fazer? Chorar? Matar o Serra? Chamar o Batman? Todas as anteriores? Não! Você vai procurar os seus direitos – porque até contra a lei, você tem direitos. Todo mundo tem.

Seu chefe, aquele tirano terrível, acabou de te demitir. Não pagou nada – depois de tantos anos agüentando o karaokê de Michel Teló, Calypso e Los Hermanos, tudo que você ganhou foi uma banana. Vai fazer o quê? Chorar? Matar o chefe? Chamar o Batman? Todas as anteriores? Claro que não! Você vai procurar seus direitos e ganhar um dinheirinho com isso.

Criamos a sociedade jurídica, onde somos iguais e temos condições de nos defender contra o próximo, contra o governo e contra a própria lei que nos iguala.

Mas quando o governador conduz uma reintegração de posse torta, o que vocês fazem? Vocês choram, fazem “petição pública online (queria que a mãe de cada um que diz isso aparecesse pelada na internet dançando Michel Teló na caixa d’água)”, chamam o Batman… E o advogado, gente?

Para garantir o seu quinhão, o advogado é indispensável. Mas para zelar pela nação… Aí, não funciona.

Você pode não gostar da sociedade jurídica; mas esse complexo normativo igualitário nos faz dar certo. É a beleza da coisa: todo mundo pode usar e todo mundo pode ter na garganta se fizer errado. Podemos violar e ter violados N direitos. E podemos aplicar as conseqüências disso, ou sofrê-las. Mas adoramos esquecer estes dois lados.

Adoramos esquecer que existem os que mandam e os que fazem. Convenientemente, esquecemos que os que mandam somos nós. Invertemos os papéis, resolvemos dormir e passar o tempo todo falando “deles que estão lá em cima”.

Essa sociedade jurídica precisa da gente pra funcionar. Mas nós não comparecemos. Os que mandam, não sabem e não querem usar o complexo; puseram na cabeça que “não funciona” e foram ver o BBB. Já os que fazem, aprenderam e são PhDs nesse complexo.

A culpa é tão deles quanto nossa. Nós é que fomos dormir e invertemos os papéis. Porque em vez de usar o complexo, o que estamos fazendo? Falando no Facebook sobre os tais “que estão lá em cima”.

Não existe isso de “eles que estão lá em cima”. Existe o povo brasileiro. Existe a Constituição brasileira. Existem os cargos que o povo brasileiro criou para administrar determinados assuntos. Existem os meios de fiscalização que o povo brasileiro criou pra controlar estes cargos e não deixar fazer errado. E existe isso, que aqui está: um monte de gente obviamente fazendo errado.

O político joga o jogo: ele finge que é legal, vocês fingem que acreditam, ele finge que faz, vocês fingem que aprovam. Ele finge que foi pego num escândalo, vocês fingem que estão revoltados. Aí começa o Big Brother, e todos fingem que não aconteceu nada. Infelizmente, por aqui, é assim.

Quer saber o que é política? É a conciliação de interesses comuns, numa sociedade esclarecida. Algo que eu queria que fôssemos.

Política é visitar a subprefeitura pelo menos uma vez por mês, pra conferir orçamento e obras, dar as suas sugestões e acompanhar o que é feito. Ou ver algo errado, questionar aquilo, e mandar devolver. Ou prender. Seu advogado certamente saberá.

Isto é possível. Está previsto em lei e há quem faça isso. O problema é que pessoas que conhecem os mecanismos jurídicos que fazem isso acontecer são poucas. A maioria, a maldita democracia, não quer saber de nada.

Enquanto as pessoas continuarem falando “deles lá de cima” e querendo demonizar as coisas, sem usar o complexo que o Brasil construiu… Nunca vai dar certo. Até Marx dizia que a evolução econômica só ocorreria quando grande parte da população atingisse um patamar cultural, intelectual, ambiental e econômico elevadíssimo.

Se continuarmos perpetuando essa pasmaceira de muito falar, muito escrever, nada fazer e nada querer saber… Os pokémons não vão evoluir. É simples assim. E você, desse jeitinho gongador-empurrador-de-culpa-compartilhador-de-imagem-do-anonymous-xingador-de-sistema-militante-de-xoxo-media-e-fazendo-absolutamente-nada-para-arrumar-a-bagunça, vai indo desse jeitinho simples aqui.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.