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Vou pra rua não. Vou ficar com a Constituição

Mais um texto longo – a famosa “wall of text” da internets. Adoro fazer dessas. E lá vai. Desde já, não me responsabilizo por quaisquer efeitos colaterais da leitura.

Os manifestantes do Movimento Passe Livre sairão às ruas novamente. Tudo bem acordado com a polícia. Acho que foi a primeira vez na vida da “liderança” que conseguiram algo sem bater o pé e espernear.

Aí a gente pergunta por que nada disso foi feito antes. Oras, os bonitinhos não queriam conversar antes. Eles cresceram depois de entenderem o que significa “truculência” e “repressão” por parte da polícia. Não que eu esteja defendendo a ação da PM (ok, de certa forma estou), mas esse movimento passou 3 dias brincando de terrorismo e sendo tudo que uma democracia não tolera. Ah sim: como disse o Sakamoto, quando eles quebram vidros, é “conversa”. Não sabia que hooligan era um idioma. Depois, “a culpa é da repressão da polícia”. Agora, que eles sabem o que é repressão (de verdade), o tom mudou. E de repente, o “protesto” segue as regras. Talvez, a reação forte da PM tenha sido necessária pra colocar alguns pingos nos is. O povo do leite com pera precisava compreender o pão e a água.

Pois bem. O Choque não vai às ruas. A ROTA, também não. A área de “protesto” foi demarcada e o efetivo da PM orientado a só seguir a manifestação. Jornalistas agora ganharam coletes especiais. Parece que tudo terminará bem.

Eu não confio muito nisso. Primeiro, porque muita informação falsa está circulando nesses eventos – pra você que nunca andou em São Paulo sem o carro da mamãe antes: o Largo da Batata está em obras há anos. E o “entulho” lá presente tem a mesma idade das obras – e porque agora, o movimento virou um paradoxo de si mesmo.

Tem a música d’O Rappa como convite, mas participantes (quiçá liderança) estão ameaçando pessoas que não apoiam nem o MPL, nem o partido de situação. Eles defendem que essa é a máxima expressão de ideias, mas não admitem oposição. Tentem iniciar um debate: vocês ou serão reacionários, ou burros manipulados pela mídia (isso se não forem chamados de acomodados, e se ninguém mandar vocês lavarem a boca pra falar de luta). Dizem que a luta é livre, mas agora tem dress code. Eles dizem que o Brasil deve mostrar a cara, mas ensinam a fazer máscaras (muito fashion, não?) com camisetas e orientam a não filmar ou fotografar os manifestantes, “por sua própria segurança”. Segurança de quem? Não sei. O que eu sei é que é livre a manifestação de pensamento e vedado o anonimato. Quem antes não queria, de jeito nenhum, usar o sistema, agora conta com uma personal rede de advogados para quaisquer eventualidades. Eles não foram chamados para impetrar mandados de segurança coletivos contra as tarifas, nem propor Ação Popular para fiscalizar arrecadação das empresas, ou coisa parecida. Eles só serão usados se alguém for preso (depois de devidamente fotografado e exposto na Globo como mártir) e precisar de um Habeas Corpus poético.

Tipos... Hein?

Tipos… Hein?

Como disse o estudante da UERJ que não quis se identificar: essa manifestação é um carnaval esquizofrênico.

Desculpem se o que digo parece extremamente radical. Mas já dizia o tio Ben; com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. E nós, como povo, temos grandes poderes, mas o péssimo hábito de nunca assumirmos as responsabilidades que nos cabemIr pra rua e gastar tênis gritando é o caminho mais fácil. Compartilhar coisas pelo Facebook, idem. Assinar “petição online” no Avaaz, todo mundo quer. Maravilha. Mas tudo isso é completamente isento de responsabilidade (cadê a liderança desse movimento pra pagar a conta do monte de coisa quebrada? Aí ninguém quer ser porta-voz). Assim, não adianta. Ninguém consegue nada, só atenção – e depois, não sabe o que fazer a respeito.

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Mas aí, vem alguém e diz que “a via jurídica não precisa ser a única”. Ela não é. Tem a via legislativa. Tem a via política. Tem a via educacional. Tem a via histórica. São muitas as vias pra se ensinar – e aprender – a exercer seu poder e ser responsável por ele. Mas isso… É difícil. E ninguém quer nada difícil. Aí, vem alguém e diz que precisamos de “uma força contrária à força do Estado”. Poxa, que frase bonita, quase chorei. Mas eu sou o Estado. E você também. Quem escreveu isso, está no mesmo balaio. E se somos nós o Estado… Por que diabos queremos ficar contra nós mesmos? Masoquismo, talvez? Síndrome de Doppelganger? Não sei. Não consigo entender.

Dizem que o gigante está acordando. Bom… Sonâmbulos também berram. Eles andam, falam, comem, até podem matar. Quem vê, acha que estão acordados. É fácil achar isso. É fácil para o sonâmbulo ser sonâmbulo; se tudo der errado, ele não sabia. Estava dormindo. E se der certo… Bacana, mas ele estava dormindo.

Tem muitas aspas nesse texto. Isto porque muita gente dá o nome, mas não entende o que isso significa. Enquanto Sampa se “manifesta” berrando na rua e tumultuando a vida alheia, Cabo Frio se manifestou por meio de Ação Popular, questionando a licitação do transporte coletivo. Porto Alegre e Goiânia se manifestaram – aliás, parabéns pra Goiânia. Buscando no site do TJ, achei um calhamaço de Ações Populares (algumas dando errado, mas outras firmes, fortes e até decididas e bem favoráveis ao cidadão) contra Prefeitura e CMTC. Eles não estão parados, cobram, questionam, tomam a responsabilidade. Se manifestam. Parabéns – e conseguiram o que queriam. Eles não demoraram mais que 5 dias nisso. É a grande diferença entre “poder” e poder: quem assume as obrigações com as liberdades, tem tudo funcionando como deve.

Quem só quer ganhar as coisas sem o mínimo de esforço , está no Largo da Batata, acreditando que o Alckmin passou a noite toda carregando 10 anos de entulho pra lá. E que o Ministério Público pode julgar e indeferir recursos de prefeituras sobre metrôs e trens.

Enfim. Preparem-se. Já diziam os Starks: o “protesto” está chegando. Soninha, por favor, não morra. Eu ainda sonho em ter alguém competente na prefeitura de Sampa.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.